
PRECONCEITOS E AUSÊNCIAS
ESTADO E SAÚDE MENTAL NO INTERIOR
Da Relatos Daqui:
Erik Daniel - Gustavo Gonçalves - Jeliel Victor - Renato Mendes
Para a OMS, saúde é o completo bem-estar físico e mental. Mas muitas vezes o poder público negligencia o tratamento para esses casos. Danielle lutou durante oito anos por um atendimento digno para o filho no Sistema de Único de Saúde (SUS), e depois das incontáveis idas a postos e hospitais de Juazeiro do Norte, acabou precisando buscar um serviço voluntário.
Por causa dos problemas estruturais do sistema público, Guilherme Brito também teve que passar por um processo de cerca de um ano para ser diagnosticado com o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG).
Transtorno Mental é uma disfunção da atividade cerebral que pode gerar prejuízos emocionais e físicos de forma bastante significativa. Os pacientes sofrem com alteração no humor, comportamento, raciocínio, concentração e memória. Esses problemas podem surgir por múltiplos fatores, além disso, podem surgir associadas a doenças físicas.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) não pode ser classificado como problema mental, pois é uma condição genética caracterizada por alterações no comportamento. Mas assim como uma doença, é fundamental um acompanhamento psicológico contínuo.
A espera provoca o agravamento dos problemas psicológicos, cognitivos e de comunicação. No meio acadêmico, existem serviços de psiquiatras e psicólogos que acabam sendo uma alternativa para muitos jovens.
No entanto, como mencionado pelo psiquiatra Crístenes Sanches, da UFCA (Universidade Federal do Cariri), existem outras formas de receber tratamento, é buscar serviços comunitários gratuitos que atendem a população carente desse serviço. Um exemplo é a Diaconia da Alma da comunidade Sal da Terra. O local oferece serviços psicológicos e psiquiátricos gratuitos para a comunidade local em Juazeiro do Norte. Foi esse local a saída encontrada por Danielle.
A dona de casa Danielle Alves sofre com o descaso na busca de tratamento para o filho, Danillo, um garoto com TEA leve. Por conta da falta de assistência médica, o jovem vem sofrendo também com o transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG). Segundo ela, a falta de atendimento prejudicou a saúde do garoto:

“Hoje a ansiedade tomou conta dele. Quando ele sente, não consegue controlar. Se a ajuda tivesse vindo antes, talvez, hoje ele não estivesse tão grave. A ansiedade dele é maior que o próprio autismo”.
Alguns especialistas indicam que os indícios de TEA começam aos três anos. Danillo fez sua primeira consulta com um psicólogo apenas aos cinco, na Unidade Básica de Saúde da Vila Nova, em Juazeiro do Norte. E o “diagnóstico” do profissional foi simplesmente imperatividade.
“Ela (psicóloga da UBS) estava me dizendo que ele era muito imperativo, tinha muita energia, tinha que gastar, então ela nunca me encaminhou para outra coisa maior”, conta Danielle.
Em entrevista,
a coordenadora de saúde mental de Juazeiro do Norte, Deyse Luz, diz não concordar com um diagnóstico precoce, enquanto Danielle vê de forma totalmente oposta.


“Fui descobrir agora. Ele com 13 anos, precisava de cuidados faz tempo, mas eu nunca consegui”.
Uma total ausência de um sistema público de qualidade, que acabou sendo substituído pelo projeto Diaconia da Alma da comunidade católica Sal da Terra. Danillo vai a cada quinze dias para um acolhimento psicológico e espiritual. O local vive totalmente por meio de doações, como conta a líder da comunidade:

Saúde mental é um direito garantido na lei 10.216 de 2001, e deve ser garantido gratuitamente pelo Estado. Danielle, antes de buscar a iniciativa, conseguiu uma consulta psiquiátrica no Hospital Estefânia Rocha Lima, mas conta que o serviço não aconteceu como ela imaginava:
“O psiquiatra nem olhou para ele. Foi uma questão assim de cinco minutos, cinco minutos não, de dez a cinco segundos, que eu sentei, só passou uma receita e fui embora, nem deixou eu dizer o quê o menino tinha. Então eu não dei (o medicamento).”
Comparando com o atendimento do Estefânia, Danielle elogia o serviço do Sal da Terra:
''Totalmente diferente dessa casa de apoio. Lá, ele (médico) olhou o menino. Foi ver o desenvolvimento dele, e nem deixava eu responder. Dizia que tava conversando com ele.”
O relato mostra a existência de um paradoxo entre a qualidade do serviço ofertado pelo SUS e de um local privado, conforme a própria dona do lar: “Meus pais me ajudaram a ir atrás de um atendimento particular, totalmente diferente a consulta, mas estou vendo se ele faz acompanhamento pelo SUS, porque ninguém tem dinheiro para fazer particular.” Conforme dados atualizados do site Fácil Consulta, um tele atendimento psiquiátrico, em Juazeiro do Norte, varia de 230,00 a 550,00 reais.
A psicóloga Maria de Fátima, que trabalha no Hospital São Vicente de Paulo em Barbalha, comenta como deve ocorrer o atendimento com crianças.
Ela afirma que na psicologia, assim como em todas as áreas quando se trata de criança, elas vem acompanhada dos pais. Adolescentes muitas vezes também vêm. Um dos recursos utilizados, é o do lúdico, com papel e lápis, pra criança pintar, e colorir.
"Ali, ela pode expressar os sentimentos dela, o que está guardado, que muitas vezes é a forma da expressão da criança. E o adolescente também pode expressar, através do lúdico, mas o adolescente já tem a fala, a linguagem formada. É possível que ele expresse falando mesmo. Mas o adolescente precisa também dos pais pra o acompanhar, pra o encorajar, pra falar por eles."

O repositor de supermercado, Guilherme Antônio é um dos dezenove milhões de brasileiros que sofrem com ansiedade, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O quadro surge por múltiplas causas, mas predomina a instabilidade emocional ou preocupações.
"Eu percebi que eu estava com ansiedade quando muitas vezes, ia ter algum evento no outro dia. No meu aniversário, por exemplo, eu não conseguia dormir, não conseguia dormir direito, ficava com insônia, ficava virando só de um lado pro outro, só pensando,” diz Guilherme.
Desconforto ou dores no peito e pescoço, falta de ar, tensão, sensação de sufocamento, angústia e medo. Foi o que o jovem sentiu, com 12 anos, dentro de uma das salas do colégio Arco-Íris. “A minha primeira crise que eu senti mesmo foi quando eu estava na escola, foi no 7º ano.
"Eu tava na escola e de repente eu comecei… Coração acelerou, a minha vista até embaçou, aí comecei a ficar nervoso, comecei a não conseguir respirar direito. Quando as pessoas perceberam e ligaram para o meu pai, para a minha mãe, e eles foram lá, me buscaram, levaram no posto mais próximo e de lá e me levaram para UPA (Unidade de Pronto Atendimento)”, revive ele agora com 20 anos. Depois desse dia o na época estudante, passou a fazer acompanhamentos periódicos. Mas o diagnóstico de TAG veio apenas um ano depois.
Deyse Luz explica como ocorre o atendimento dos casos de ansiedade em Juazeiro do Norte:

O Plano de Ação da Rede de Atenção Psicossocial da Região do Cariri, divulgado em 2022, mostra que durante a pandemia tivemos uma queda no número de atendimentos e acolhimentos nos centros de atenção de Juazeiro do Norte e Barbalha, assim como mostra o gráfico abaixo.
O principal motivo dessa redução foi o medo de sair de casa para procurar esses atendimentos explica Deyse Luz. A Coordenadora ressalta que no período da pandemia, muitas famílias não levavam suas crianças, seus adolescentes e seus adultos para os CAPS, ficando os CAPS atendendo de forma totalmente ambulatorial.
As consultas com os psiquiatras, as oficinas e as terapias, ficaram suspensas e isso foi também em respeito a nota técnica do governo do Estado.
O trabalho dos CAPS ficaram prejudicado, pois não podia botar as oficinas, os trabalhos em grupo fazendo só os trabalhos individuais e muitos dos pacientes entraram em crise com medo, realmente crises de ansiedade foram mais persistentes, e o uso da medicação precisou ser aumentada e a ausência foi percebida dentro dos CAPS.
Além das dificuldades em encontrar atendimento psicológico pelo SUS, os pacientes muitas vezes enfrentam altos custos ao comprar medicações, o que os leva a buscar a distribuição gratuita pelo SUS.
PREÇO MÉDIO DOS MEDICAMENTOS EM BARBALHA E JUAZEIRO
Durante a entrevista com o psiquiatra Dr. Sanches, foi mencionado que em tratamentos que exigem medicamentos mais caros, os alunos tendem a trazer informações sobre formas de obter os remédios de maneira acessível ou gratuita, formando uma rede de compartilhamento de informações entre eles.
Um exemplo mencionado, foi um movimento realizado pela prefeitura de Juazeiro do Norte no último mês de maio, no Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) e na Quadra do Municipal, com o objetivo de recadastrar os pacientes que recebem medicamentos gratuitamente.
No entanto, a iniciativa durou apenas três dias e resultou em longas filas, causando insatisfação por parte dos pacientes. Alguns deles que não conseguiram fazer o cadastro precisaram buscar o Serviço de Assistência Médica Especializada (SAME).
A falta de organização e o alto número de pessoas em busca do serviço contribuíram para a demora no atendimento. Essa situação levou os pacientes a compartilharem vídeos nas redes sociais reclamando da demora e da falta de eficiência no processo.
Deyse, ao ser indagada sobre esse problema, declarou que na sua experiência de saúde mental, e como pasta que faz o maior uso deste tipo de medicação, quem faz mais uso destas medicações é a psiquiatria e a neurologia.
"É possível um cadastro desse acontecer de forma mais suave. Nós temos agentes de saúde nos territórios, temos os CAPS, e temos os próprios ambulatórios, então eu acredito que o próximo passo, devido a experiência de vida, ela vai se tornar mais flexível, pois o próprio agente de saúde conhece todos os pacientes que fazem uso desse medicamento na sua área, então será muito fácil e também coloca um tempo mais alargado, e os CAPS fazer seu cadastro de forma sutil, eu não vou pontuar o que está certo e o que está errado, nós cadastros porque eu não participei deste processo de decisão, mas eu acredito que a gente aprende de duas formas na vida, ou pelo o amor ou pela dor, então eu acredito que pelo número de críticas, o próximo passo vai ser mais suave, mais acolhedora e mais amorosa, com os nossos pacientes."
Outro problema que perpassa o tema é o preconceito. A coordenadora admite o problema:
“Dentro dos próprios profissionais de saúde há um estigma, há um preconceito. Então se quem cuida tem preconceito, imagina a sociedade leiga como um todo. Então nós precisamos combater esse preconceito de casa para aumentar os nossos braços e abraçar de fato.”
Guilherme, quando perguntado se já ouviu algum tipo de comentário preconceituoso foi categórico: "Sim, já escutei sim." Ele acrescentou: "Até porque quem tem ansiedade, fica com medo de falar para outras pessoas e essas pessoas ficar dizendo que é frescura, que isso não é nada demais."
A afirmação expõe uma mácula sofrida por ele e por diversos outros brasileiros.